Alexander M Gross
Literature | Language | Culture

Translation

As well as numerous German-to-English translations for the private sector, I have translated reflections on the art of translation by several renowned Brazilian translators for a bilingual volume entitled The Translator's Word, published in 2018 by UFSC University Press, Santa Catarina, Brazil.


A sample translation is shown below.


Click here for access to the e-book (chapters 8, 10 and 12 are my translations).


Palavra de Tradutor - The Translator's Word
UFSC, 2018

PAULO BEZERRA: NAS SENDAS DE CRIME E CASTIGO


Traduzir Crime e castigo era um antigo projeto pessoal, que acalentei durante anos, propus a vários editores, e finalmente pude realizar através da Editora 34, que agora põe o romance ao alcance do público brasileiro na primeira tradução direta do original para a língua portuguesa. Antes eu já enveredara pelos labirintos do discurso dostoievskiano ao traduzir o conto Bobók e transformá-lo em objeto da minha tese de livre-docência, defendida na USP em 1997.


TRADUZIR OU DESCREVER

Há mais de uma tradução de Crime e castigo para o português, dentre as quais a de Rosário Fusco, publicada pela editora José Olympio, é a mais conhecida. Trata-se de um ótimo texto em português, porém, como foi traduzido do francês, ou seja, é tradução da tradução, saiu fortemente marcado por muitos elementos característicos da língua e da literatura francesa e do próprio modo pelo qual os franceses costumam traduzir obras de autores russos. Assim, nas muitas passagens em que o narrador, em plena empatia com a profunda tensão psicológica que envolve a ação romanesca, constrói um discurso em que essa tensão se manifesta através de evasivas, reticências, hesitações, indícios de descontinuidade do fluxo narrativo, o texto de Fusco é fluido, elegante, seguro, afastando a idéia da tensão que contagia praticamente toda a narração. Se isso ocorre no plano da narração, agrava-se sensivelmente no plano do discurso das personagens, particularmente de Raskólnikov e Porfiri Pietróvitch; sem conseguir penetrar o labirinto de suas falas, o tradutor muitas vezes é levado a quase descrevê-las. Mas é bom que se ressalte: o tradutor brasileiro traduziu sob a mediação da língua francesa, fez, parafraseando Platão, uma “imitação de segunda categoria”, isto é, uma “imitação da imitação”, não podendo ser responsabilizado por nenhum daqueles problemas que acabei de mencionar. Com o material de que dispunha, construiu um belo texto em português, ficando os seus deslizes por conta do texto que lhes serviu de fonte. Esse é o problema central das traduções de segunda mão: dependem totalmente da qualidade do texto que lhes serve de fonte, sem meios de penetrar a essência do texto do autor. É isso também que justifica plenamente a tradução direta, muito particularmente quando se trata de ficção.


Toda tradução é a tradução possível, o ato de traduzir, particularmente ficção, encerra uma boa dose de saudável ilusão, na medida em que acreditamos, honestamente, traduzir o que está no texto. Portanto, não podemos enfrentar um texto literário com a pretensão do “dois e dois são quatro”, pois estamos diante de discurso literário com toda a sua carga polissêmica, o que nos obriga constantemente a interpretar o sentido ou os sentidos de uma palavra ou expressão no contexto específico desse discurso e procurar o modo mais adequado de transmiti-los. Para tanto é indispensável, é essencial que o tradutor conheça, e bem, o universo cultural em que se produz esse discurso e os seus referentes vários, somando-se a isso outra questão essencialíssima: a honestidade profissional, o comprometimento ético com a palavra do outro. Isso nos obriga a ir às últimas conseqüências, ao fundo do poço à procura do sentido mais próximo de determinada palavra ou expressão nas circunstâncias concretas da sua enunciação.


Ao traduzir Crime e castigo, procurei manter os elementos de estilo que são peculiares ao do autor. Dostoiévski usa com certa frequência o travessão – ora para enfatizar um pensamento do narrador ou de alguma personagem, ora para inserir outras idéias na discussão etc. –; emprega, e muito, duas (e às vezes até mais) adversativas contíguas, como no, odnako je, que traduzimos o mais das vezes como “mas, não obstante”; abusa do emprego do advérbio vdrug (que chega a aparecer cinco vezes em um parágrafo), que traduzi como “de repente”, “num repente”, “súbito”, “eis que” etc. O discurso dostoievskiano nem sempre prima pela fluência, pela elegância; sua constituição depende do clima social e psicológico em que se desenvolve a narração, da tensão psicológica que envolve as vozes das personagens, do grau de empatia entre o narrador e as personagens. O enredo de Crime e castigo é marcado por uma tensão dramática às vezes até sufocante, que decorre do labirinto discursivo em que se encontram as suas personagens, daí a forma sinuosa que as suas falas assumem. Há também falas empoladas, como a de Razumíkhin, por exemplo, na qual se intercalam expressões que à primeira vista parecem desprovidas de sentido. Procurei seguir de muito perto a maneira pela qual cada personagem se exprime, manter o ritmo das suas falas, a ordem da sua construção, traduzindo-as em vez de descrevê-las, como costuma acontecer na tradução indireta. Amaneirar o discurso de Dostoiévski para torná-lo “mais elegante” e “mais fluido” significaria atentar contra a originalidade de um autor cuja peculiaridade principal é a ruptura com as matrizes tradicionais do pensamento e suas formas de expressão.




PAULO BEZERRA: ON THE PATH OF CRIME AND PUNISHMENT


Translating Crime and Punishment was an old personal project that I cherished for many years, proposed to various publishers, and could finally complete thanks to Editora 34, which is now putting the novel within reach of the Brazilian public with its first direct translation from the original to the Portuguese language. I had previously set out into the labyrinths of Dostoyevsky’s language when translating the short story Bobók, which turned into the subject of my doctorate thesis, defended at USP in 1997.


TO TRANSLATE OR TO DESCRIBE

There are several translations of Crime and Punishment into Portuguese, of which the best known is the one by Rosário Fusco, published by José Olympio. This is an excellent text in Portuguese, but as it was translated from French, and is therefore a translation of a translation, it came out strongly marked by many characteristic elements of the French language and its literature, and by the particular way in which the French tend to translate works by Russian authors. Thus in many passages where the narrator, in complete empathy with the profound psychological tension that pervades the action of the novel, constructs a discourse in which this tension manifests itself by means of evasion, ellipsis, hesitation, signs of discontinuity in the flow of the narrative, Fusco’s text is fluid, elegant, self-assured, obscuring the feeling of tension that partially infects the whole narrative. If this occurs at the level of narration, it gets considerably worse in terms of the language of the characters, particularly that of Raskolnikov and Porfiri Pietrovitch; without being able to penetrate the labyrinth of their speech, the translator is forced almost to describe them. But it is worth pointing out: the Brazilian translator translated through the French language, resulting in, to paraphrase Plato, an “imitation of the second order”, that is to say, “an imitation of the imitation”, and he cannot be blamed for any of the problems that I have just mentioned. With the material at his disposal, he constructed a beautiful text in Portuguese, retaining its faults because of its source text. This is the main problem of second-hand translations: they depend totally on the quality of the source text, without ways to penetrate the essence of the author’s text. This is also what fully justifies direct translation, particularly where fiction is concerned. 


Every translation is the best possible translation; the act of translation, particularly of fiction, entails a fair amount of healthy illusion, as we honestly believe that we are translating what is in the text. Therefore, we cannot confront a literary text pretending that “two plus two equals four”, as we are facing literary language with all its polysemic power, which obliges us to constantly interpret the meaning or meanings of a word or expression in the specific context of this language, while looking for the most adequate way of transmitting them. Above all, it is essential that the translator has a good knowledge of the cultural universe in which this language, with its various references, is produced. As well as this, the other issue of utmost importance is professional honesty, the ethical commitment to the other’s word. This requires us to go as far as possible, to the very depths in the search for the best sense of a given word or expression in the concrete circumstances of its expression. 


In translating Crime and Punishment, I tried to retain those stylistic elements that are particular to the author. Dostoyevsky somewhat frequently uses the dash – sometimes to emphasize a thought of the narrator or a certain character, sometimes to insert other ideas into the discussion etc. –; he very often uses two (and at times even more) joined adversatives, as with no, odnako je, which we usually translate as “but, nonetheless”; he overuses the adverb vdrug (appearing up to five times in a single paragraph), which I translated as “suddenly”, “all of a sudden”, “immediately”, “as soon as” etc. Dostoyevsky’s language is not always recognised for fluency or elegance; its makeup depends on the social and psychological climate in which the narrative is developed, on the psychological tension that pervades the voices of the characters, and on the degree of empathy between the narrator and the characters. The plot of Crime and Punishment is notable for an at times almost suffocating dramatic tension that results from the linguistic labyrinth that the characters find themselves in, hence the twisted form that their speech assumes. There is also pompous speech, such as Razumikhin’s, for example, in which apparently nonsensical expressions are inserted. I tried to follow closely the manner in which each character expresses her/himself, maintaining the rhythm of her/his speech and its syntax, translating rather than describing, as is the tendency of indirect translation. Adapting Dostoyevsky’s language to make it “more elegant” and “more fluid” would mean undermining the originality of an author whose principal distinguishing feature is the break from traditional patterns of thought and their forms of expression.

Gross, A. M.